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Barco a remo

O pensamento do dia era o de escrever um texto sobre a tristeza. Amanhecia o dia, vinha a noite, coração na mão, vazio pela falta de quem o completa, uma melancolia doida, um desejo que não cessava de dizer o quanto o queria. E daí a pouco, matutando na frente do computador, uma música romântica ali, uma canção falando de saudade por acolá, um olhar para a sua foto no porta-retratos em cima da estante, umas gotas do perfume que ele gosta esparramadas no seu pulso, como se elas pudessem transportar-lhe até o outro lado da terra. Correndo contra a substância do tempo, fazendo gracejo com palavras bobas e sem noção, brincando de pedreiro com prefixos, sufixos e rimas pobres, ele ia compondo paredes de uma pequena casa, cheia de versos tão ingênuos quanto o amor que pulsava no seu peito. E, como operário persistente, ele repetia de forma incansável, vez ou outra, quando o não-estar-junto apertava, o ato de levantar paredes cheias de versos, umas mais úmidas de tanto cimento, outras mais secas, quase que nem o pedra-e-cal esturricado que ele via nas cabeceiras do riacho nos tempos do saudoso inverno. E vivia daquele jeito, ermo, esperando que sua pequena casa, embora incompleta, imperfeita e cheia de rachaduras pudesse impressionar quem lhe fazia falta, ainda que não houvesse móvel algum a adornar o seu interior. Mas, nunca sabia de nada: se impressionava, se tocava, se era considerada, se era, ao menos vista e depois desprezada. Não tinha ideia se seus ensonados versos ecoavam no coração alheio, fazendo nascer, ainda que fosse, uma flor cor-de-bonina, ou se se tornavam estéreis logo que eram publicados. As fotos que lhe ofertara, pela rede ou à moda antiga, reveladas, com dedicatória atrás, não sabia que efeito tinham provocado – se é que tinham. Ele vivia desse jeito, olhando para o tempo quente que entrava no seu quarto pela janela desbotada, esperando que a brisa do cair da noite lhe trouxesse algum aceno de que as paredes que vivia a erguer, com argamassa de dentro do seu coração entusiasta, de alguma maneira tornassem-se sólidas no coração que tanto desejava. Mas, certa hora, na boquinha da noite, após efetuar duas chamadas sem sucesso, o seu amor retornou a ligação e se falaram. E ele foi intuindo que amor era daquele jeito mesmo, cada um em ritmo, tempo e espaço diferentes; que não se deveria buscar um amor que correspondesse, fielmente, ao que se idealizava na sua cabeça; que não se deveria esperar tempestades de nuvens que não estavam continuamente carregadas; que não se deveria imaginar que as pessoas eram obrigadas a lhe amar do jeito que você acha que devem. E aí ele foi se tocando que não deveria escrever um texto sobre tristeza, mas, um escrito qualquer, um pedaço de prosa, que falasse das coisas da vida, de como elas estão sempre em movimento e de como as ideias das pessoas – sobre si e sobre os outros – mudam com a mesma velocidade com que o clima muda, do dia pra noite. P.S.: Ele continuava seguindo em frente, do mesmo jeito, como uma nuvem torrencial, um relicário cheio de emoções, um almofariz lastrado de amor, porque era sua sina.

 

Em 22 out 2012

Perturbação

Dias de domingo movidos a vontades, só vontades,

Dias incompletos, derruídos, quase mortos

Mutilados pelo vento corrosivo da saudade que fisga o peito

Agonia de não poder ser o dono de seus olhos e o desejo

Das palavras doces, ou tortas, ou meigas, do seu jeito

Do afago singelo como a linda flor da beira da calçada

Do olhar enviesado, de quando você me fita, eu distraído

Me tirando de tempo, com brincadeiras bestas, num lampejo

De criancice e ingenuidade – aquelas de que sinto falta

Nem a mais bela das canções exprimiria a minha sede

De viajar, ainda que de raspão, pelo castanho de seus olhos

De amanhecer ao seu lado e sentir o calor do seu corpo

De suportar, ao seu lado, a impetuosidade das ventanias

E o perfume gélido do ambiente austero do seu quarto

O que é viver assim, mendigando favores do tempo e do espaço?

Tantos rumos, tantas possibilidades, tantos pensamentos

Passar dias sem te ver é experimentar o amor de dias incompletos

 

Em 22 out 2012

Tempestade

Borboletas na janela

Vibrações e desejo

Vento quente e ácido

Trancado nessa cela

Buscando o ar que desejo

Por que tanto te almejo?

Hein, meu amor plácido?

Borboletas, sonho

Metamorfose, inverno

Irascível me indisponho

A não ter seu beijo terno

Saudade, verdade, tempestade

[Sem título]

Saudade é sentimento estranho. Cantiga melancólica toada dentro do ser quando a lembrança que têm de si se deixa escapar pelas veias da memória. Fragrância erma povoada de tons de solidão insofismável. Visão fugidia dos instantes já compartilhados lado a lado, eivada de vontades. Sabor de ventania e de desejos que vêm à mente, mesmo quando as circunstâncias não permitem realizá-los. Toque de um afeto que quer demonstrar-se a todo custo, mesmo quando não encontra eco nos labirintos da companhia. Saudade não é sentimento de uma via só e tampouco aquele em que muros como a distância são obstáculos. Saudade só é saudade quando se é sentida a dois.

 

Em 12 out 2012

Foi e é

Escutou muito tais músicas num passado não tão distante

Nutriu-se, até quando pôde, das suas melodias e delírios

Fez planos, construiu castelos no ar, sonhou

Cismou que o amor era uma coisa simples

Imaginou que o mundo podia ser mudado

Pensou que tanto fazia ser ou não ser

Mas, ainda era cedo…

 

Ainda guarda os pedaços de papel daqueles tempos

Os sofismas que impingia a si próprio, adoçados com versos brancos

As cartas endereçadas a um sujeito que nem sabia que existia

Os bilhetes trocados em sala, as chapas tiradas de tineta

E todo aquele arroubo apaixonado de não-sei-bem-o-quê

Mas, nada era como imaginava…

 

Ousou almejar um futuro onde não houvesse mentiras

Refugou ideias estúpidas de seus amigos sobre traição

Decalcou em sua alma os estigmas cruéis do medo

E de verdade não entendia, de um quilo, nem cem gramas

De tudo aquilo que se falava por aí afora sobre amor

 

O gosto amargo das suas desilusões inda subsistia

Fazia das vicissitudes daqueles dias negros sua cruzada

Em busca de transformação das próprias engrenagens do ser

Enquanto aspirava a ser ornado com a pluma cândida do amor

 

E, ainda que fosse fatigante e extenuante a arte de sonhar

Vivia fugindo de personagens criados no calor da ilusão

E dedicando-se a dedilhar desejos de cultivar o amor

 

Ainda que fosse cedo e que nada fosse como imaginava

Bastava levantar os olhos pela manhã, ver o sol nascer e amar

 

Em 10 out 2012

Labor

Ouvia aquelas músicas de tempos já finados

Tentando esquecer dos tempos olvidados

Calculava todas as possibilidades nas pontas dos dedos

Elas estavam jogadas ao rés do chão, na sarjeta

Por que a flor foi murchando dessa forma?

Extenuado com tanta dor assistia a tudo isso

Intrincados nós se formavam na sua esfera

Esbofava-se com poucas palavras

E já não sabia mais o que julgar

Tecendo o próprio tempo, arquejava

Ouvia aquelas músicas de tempos já finados

Tentando esquecer dos tempos olvidados

Na esperança de tecer novos tempos

Conquanto esse sonhar fosse pintado de labor

 

Em 09 out 2012

Fuga

As flores já se recolheram para suas intimidades

A escuridão do véu noturno entra pela minha janela

Do lado de fora, um suspiro de vontade peleja no ar

Uma ligeira e contida brisa faz-se sentir no meu rosto

Sua leveza e suavidade fazem-me lembrar da luz do dia

Todavia, ele já se foi embora, atravessou o cosmos,

Fugiu de mim, escondeu-se na hora da minha necessidade

Tirante a negro, a noite mostra-se em todos os seus tons

Escusa de suas vontades, apresenta-se como rainha

E no cadafalso estremecido do meu pensamento

Lembranças da luz do dia inda teimam em aparecer

Resquícios de uma claridade que já singrou para Morphia

Obscura, a noite convida-me a encontrar a reclusão

Sem poder resistir, desisto de mim e entro no seu cárcere

Vou-me embora – não pra Pasárgada de Bandeira

E nem para os prazerosos Campos Elísios

Cansado, marcho para um lugar irrefreável

Onde seres insensatos aguardam minha chegada:

Lençóis, travesseiros e almofadas.

 

23 set 2012